Depois do enorme sucesso que foi 'OK Computer', o Radiohead se vê projetado mundialmente, sendo uma das bandas mais aclamadas do final do século passado. Questionando a solidão trazida pela vida moderna, eles conseguiram um marco graças a este último feito: 'OK Computer' é considerado um dos álbuns mais importantes da história do rock.
Mas o que fazer depois de obtido o sucesso? Mais do mesmo? Certamente, este não foi o caminho escolhido pela banda. 'Kid A' é diferente de tudo o que eles haviam feito até então, tanto nas letras quanto nos arranjos.
Thom Yorke não gostou da idéia de ter sua vida analizada por suas letras e, para tanto, utilizou-se de um pouco do dadaísmo para compor. Verdade que as letras de 'Kid A' soam simples, mas existe um outro fator que deve ser mencionado ao se falar deste álbum: o clima de tensão sobre o qual ele foi construído.
Além de ter sido o principal responsável pelas letras, o que já é de costume dentro da banda, Thom Yorke quis exercer um grande controle sobre os arranjos. Este, além de outros fatores, foram responsáveis pelo quase-fim da banda. Houveram muitos desentendimentos...
'Kid A' causa estranheza. Trata-se de um disco totalmente experimental, em que o Radiohead usou e abusou da música eletrônica. Nota-se também a presença do jazz aqui e acolá.
Quanto à temática, a maioria dos críticos não conseguem ser precisos. Alguns acham que ele ainda é uma continuação do 'OK Computer' no que diz respeito ao cenário apocalíptico traçado pela pós-modernidade. Os mais "viajadões", baseados na mitologia radioheadiana, dizem que o álbum tem como protagonista o primeiro clone humano. Concordo até certo ponto com as duas opiniões.
Como o próprio título sugere, e como se pode ver na maioria das letras, crianças parecem ter um papel fundamental em 'Kid A'.
Para tentarmos entender isso, utilizarei o método de análise faixa-a-faixa:
1. Everything in It's Right Place: Thom Yorke acordou chupando um limão. E você é trazido por teclados e sintetizadores para um futuro não muito distante, onde só se vêem duas cores (subtendem-se o preto e o branco).
O título-refrão sugere estar tudo bem, "tudo em seu devido lugar": denotação clara de ironia.
2. Kid A: A ternura do universo infantil parece ter perdido toda a sua beleza neste ambiente hi-tech. Entra enfim a bateria, dando um pouco de ritmo à coisa.
Thom Yorke fala de forma quase que incompreensível. Sua voz surge totalmente distorcida, quase que fundida ao sintetizador.
O eu-lírico, a suposta "Kid A", fala em levar as crianças e os ratos para fora da cidade.
3. The National Anthem: Alguém lembrou da Björk, diva islandesa?
Para aqueles que até então estavam sentindo a falta de cordas, eis que surge um baixo pesado, que vai ditando uma espécie de "marcha".
A National Anthem diz que todos são próximos, que todos são amigos. Diz também que todos estão esperando por um sinal.
Mais que irônica, esta música faz uma crítica à nossa passividade e inércia.
4. How to Disappear Completely: Taí algo que porventura possa lembrar os álbuns anteriores do Radiohead: Thom Yorke e suas questões existenciais. Ele diz não estar lá, e é difícil não acreditar.
5. Treefingers: Dizem haver algo de música alemã por aqui, só que ainda não descobri. Na verdade, 'Treefingers' pareceu-me muito mais um chakra para meditação...
Em suma, trata-se de um intervalo onde uma sutil guitarra, e um quase imperceptível teclado, têm sintetizadores como plano de fundo.
Esta música exerce um importante papel quando vista sobre o contexto do álbum. Ela é o responsável por situar o ouvinte depois de tanta coisa estranha.
6. Optimistic: Eis que enfim pode-se verdadeiramente sentir a guitarra elétrica! E o Thom mais uma vez nos ataca com a sua ironia. Desta vez, se referindo à sociedade do consumo.
7. In Limbo: Canção propositalmente amortecida. Guitarra em espiral e bateria jazzística, aproveitando assim a brecha deixada pelo finalzinho de 'Optimistic'.
Limbo é o lugar onde, segundo a teologia católica, estão as almas mortas sem batismo. A palavra pode também apenas significar "orla", "borda".
Talvez seja o lugar para onde foram levados os ratos e as crianças de Kid A.
8. Idioteque: Soaram o alarme. É hora de se esconder da guerra, ou de alguma outra catástrofe.
'Idioteque' é a música mais bonita, o auge do disco. Ela conta com sintetizador na base harmônica e bateria eletrônica na base rítmica (esta última dando um ar de baladinha à música).
O destaque mesmo vai para a interpretação do Thom Yorke. A melancolia da voz dele contrastando com a batida de discoteca é uma coisa fabulosa.
9. Morning Bell: É hora de sair do esconderijo. Nada como um dia depois do outro...
Esta música parece servir como elo de ligação com o álbum seguinte da banda, 'Amnsesiac', onde ela aparece novamente. (Na verdade, as canções de 'Amnesiac' foram gravadas no mesmo período que as de 'Kid A'.)
Talvez devido a um divórcio, a música fala em dividir as crianças ao meio, tal como na lei de Salomão.
10. Motion Picture Soundtrack: O acordeon do início fez-me lembrar de Yann Tiersen. Entra a harpa, que nos remete a clássicos Disney. A música é só harmonia: não há instrumentos de ritmo.
Se 'Idioteque' foi a música mais bonita, esta foi a letra de que mais gostei. Ela parece ter motivos românticos, fazendo assim destoar do resto do álbum, onde a palavra "amor" foi proibida.
